“Pessoas especiais morrem aos domingos”

 

“Pessoas especiais morrem aos domingos”, minha mãe sempre falava.

[na foto, minha mãe simplesmente sendo ela mesma e feliz por isso]

Ela sempre foi muito independente. Tinha suas atividades na igreja, cuidava dos meus tios, que são surdos, tinha suas amigas, amava comer coxinha na Padaria Brasileira.

Sempre ia aos médicos sozinha.

Era muito sociável. Era impossível passar por algum lugar e não fazer uma amiga ou amigo, mas mesmo assim não gostava que a acompanhassem ao médico. Por isso estranhamos quando nos avisou que precisávamos ir juntos ao hospital, ela, eu e meu pai. Fora pedido do médio.

Parece clichê, mas no início não entendemos muito bem o que estava acontecendo. Nada fazia sentido. Estranhos os nomes, as descrição anatômicas, prognósticos, as palavras terminadas com “omas”..., mas tudo desapareceu ao ouvirmos a palavra CÂNCER.

O médico queria interná-la naquele momento e operar imediatamente, mas tínhamos que esperar os resultados de outros exames que sairiam em alguns dias.

Iniciou-se a primeira maratona... o hospital ligava para interná-la, chegávamos, lá, tinha outro exame pra fazer, os resultados demorariam para sair, não teria sentido deixá-la internada até lá. Voltávamos para a casa. Isso aconteceu umas quatro ou cinco vezes.

Era bom voltar à casa, sem precisar deixá-la no hospital, mas a ansiedade era grande e o médico tinha urgência e a todo momento falava que não poderia perder tempo. A qualquer hora o telefone poderia tocar e lá iriamos nós novamente.

Se minha mãe estava assustada ou amedrontada (nós estávamos), ela simplesmente resolveu que não iria dar importância para isso, e continuou vivendo leve e independente, rindo de tudo, dando broncas maternas e preparando a festa de aniversário do meu irmão mais velho.

Logo após a festa, foi finalmente internada.

Graças a ajuda dos meus tios Neide e Ney, conseguimos um quarto particular, o que fez toda diferença. Pudemos ficar com ela o tempo todo.

Ela recebeu muitas visitas de amigos, parentes, dos pastores e de pessoas da igreja que a amavam. E todos saiam encantados com a sua tranquilidade e bom humor.

Minha irmã já morava em São Luís, então eu levava o computador e ligava via Skype, e as duas ficavam horas conversando e rindo. Pois é, rindo!

Meu pai passava todas as noites no hospital. Eu ficava às tardes e algumas manhãs e minha tia também ficava algumas manhãs.

Minha mãe sempre gostou de ler, então tinha levado alguns de seus livros. Lia também a Bíblia, que ela sempre carregava na bolsa, e que parecia uma mistura de livro, caderno, álbum de fotos e caixinha de recordação. Sua Bíblia estava repleta de bilhetinhos, marcadores de páginas, fotos dos filhos e netos (que ela mostrava com orgulho pra todas as pessoas que encontrava) e diversos papeizinhos com anotações.

Carregava também o No Cenáculo, livreto devocional que a acompanhou por toda a sua vida.

Nas horas que ela estava lendo, eu aproveitava para tentar adiantar a dissertação de mestrado, mas a cabeça voava longe.

Nas tardes que passei com ela no hospital, às vezes conversávamos, às vezes eu lia algo pra ela ou ela lia algo para mim e às vezes cochilávamos de mãos dadas.

Foi anunciado o dia da cirurgia, todos preparados, mas o anestesista viu os exames de sangue e apontou uma anemia, o que aumentaria ainda mais os riscos do procedimento.

Tudo adiado. Minha mãe recebeu transfusão de sangue por alguns dias (eu já era doador, mas isso me fez ter um compromisso maior com a doação de sangue, e procuro doar pelo menos uma vez por ano). Doe Sangue!

Na igreja, os cultos já eram transmitidos pelo YouTube. Minha mãe não pode assistir no domingo, mas na terça-feira levei o computador e ela pode assistir a celebração da Igreja Metodista Central em Santo André - IMESA. Ao final do culto, o pastor Daniel Rocha mandou uma pequena mensagem especialmente para ela e fez uma oração de intercessão.

Assim que o pastor terminou a oração e eu fechei o computador, as enfermeiras entraram e anunciaram que minha mãe iria para a sala de cirurgia naquele exato momento, sem aviso prévio, sem podermos nos preparar, e sobretudo sem ela poder se preparas.

A cirurgia iria ocorrer sob protesto do anestesista, pois ela ainda estava muito enfraquecida (soubemos disso mais tarde).

Foi tudo muito rápido.

Pela primeira vez, em todo esse processo, puder ver temor nos olhos da minha mãe. Ela fixou o olhar em mim enquanto ia sendo levada na maca para a preparação para a cirurgia.

Foi a última vez que vi aqueles olhos negros e alegres abertos...

O câncer estava maior do que o esperado e havia muita aderência nos órgãos. A cirurgia foi muito mais complicada do que o se pensou..., mas ela resistiu e foi para a UTI.

Começou a grande espera e a segunda maratona... dias, semanas (meses?) indo todos os dias ao hospital. Pequenas esperanças, grandes sustos e o suspense em nossos corações.

Eu e meu pai pudemos cantar para ela na UTI, pentear seus cabelos, falar em seus ouvidos... foi um tempo precioso de preparação.

Então, num domingo de manhã, bem cedinho, o hospital nos liga para irmos nos despedir dela, já não havia mais o que fazer.

Liguei na igreja para pedir oração e saímos.

Acredito que o templo ficou vazio naquela manhã, porque havia literalmente dezenas de pessoas no hospital para nos ver e para se despedir dela. Foi algo incrível e emocionante, a minha família maior estava lá.

Início da tarde, estava ao lado dela, pessoas entrando e saindo (o pessoal da UTI liberou a “peregrinação” das pessoas para vê-la), logo depois da tia Alice ter saído (querida tia Alice, que também faleceu num domingo), minha mãe se sentiu livre para ir... seu peito foi se esvaziando... a médica, com olhar triste e respeitoso foi desligando os aparelhos e restaram eu e o silêncio. Em princípio aquele silêncio foi aterrador, mas aos poucos, como uma pena caindo levemente, foi pousando uma tranquilidade que se transformou em paz.

Dia 14 de outubro de 2012, num domingo, era início da tarde.

Enquanto o corpo era preparado, fomos iniciar a correria com papelada, funeral, avisar as pessoas, tentar ter informações da minha irmã, que havia pegado o primeiro voo para São Paulo, mas só conseguiria chegar no dia seguinte.

O corpo foi para a Igreja Metodista em Santo André, lugar preferido dela e onde ela já havia morado, na casa dos fundos (meus avós foram zeladores da igreja).

O culto acabou, mas ninguém foi embora. Todos ficaram aguardando a chegada do corpo e a nossa chegada.

Ao chegarmos, recebemos uma onda de amor, as pessoas nos enchendo de abraços, palavras de carinho e consolo, sobretudo a meu pai, que parecia estar em choque, num tipo de torpor. Levaram um lanche, fizeram café, algumas bolachas e muito amor.

O corpo foi velado na igreja. Na manhã seguinte, o culto de ação de graças por sua vida, e então o corpo foi encaminhado para o cemitério

Foi uma segunda-feira de manhã! A igreja ficou lotada, circularam por lá cerca de trezentas e cinquenta pessoas para homenagear minha mãe, uma mulher simples, que mal terminara o ensino médio, chamada Maria Pereira da Silva, um dos nomes mais comuns, mas que havia tocado de maneira especial a vida de tantas e tantas pessoas.

Hoje agradeço o legado que ela deixou, de amor, de carinho, de preocupação e cuidado real com as pessoas, de deixar a sua marca e a sua alegria em qualquer um que ela encontrasse.

Ela é uma pessoa muito especial. Minha mãe morreu num domingo.

 

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