Se beber não é pecado, por que os metodistas são abstêmios?
Sobre usos e costumes da Igreja Metodista
O X Concílio Geral da Igreja Metodista, realizado em 1971, redigiu o seguinte texto nos Cânones da Igreja:
“Dos Costumes
Art. 3º - Como fez João Wesley, no seu tempo, seu pronunciamento em documento que chamou REGRAS GERAIS, código de conduta cristã para as pessoas que o procuraram, em busca de conforto espiritual, no desejo da salvação e santidade, assim a Igreja Metodista, adaptando a cada época a sua linguagem, conserva os mesmos princípios, os quais recomenda (grifo nosso) a todos os seus membros, como prática de vida, a saber:
“Dos Costumes
Art. 3º - Como fez João Wesley, no seu tempo, seu pronunciamento em documento que chamou REGRAS GERAIS, código de conduta cristã para as pessoas que o procuraram, em busca de conforto espiritual, no desejo da salvação e santidade, assim a Igreja Metodista, adaptando a cada época a sua linguagem, conserva os mesmos princípios, os quais recomenda (grifo nosso) a todos os seus membros, como prática de vida, a saber:
1. Não praticar o mal.
2. Zelosamente, praticar
o bem.
3. Atender às ordenanças
de Deus.
Fundamentada nesses
princípios, a Igreja confia (grifo nosso) que os metodistas
preservem a sua tradição e continuem a ser reconhecidos como pessoas de vida
regrada. Os metodistas são:
(...)
- Abstêmios do álcool como bebida
- Abstêmios do álcool como bebida
- Empenhados no combate aos vícios
(...)”
Destacamos dois verbos,
no texto acima, que indicam que a Igreja recomenda
uma prática e confia que seus membros cumprirão sua
tradição. Como não
há um forte indicativo de obrigatoriedade canônica, percebemos que uma
interpretação possível é :
aquele ou aquela que não é abstêmio simplesmente decidiu não observar a
recomendação da Igreja ou seguir plenamente uma tradição, que tem suas origens
nos tempos de John Wesley.
Wesley, sensível às
questões sociais de sua época, percebeu como crescia o problema do alcoolismo,
principalmente, entre os trabalhadores do início da Revolução Industrial, que
enfrentavam turnos extenuantes de trabalho com pagamentos baixos e tinham na
bebida um “alívio” das suas aflições. Preocupado com a saúde física e
espiritual do povo, Wesley recomenda a “temperança” e o evitar as bebidas
alcoólicas.
As estatísticas atuais mostram
que vivemos em situação tão ou mais grave em relação à bebida e outras drogas
que no tempo de John Wesley. Poderíamos enumerar estatísticas (veja links ao
final do texto), e todos os números ligados ao consumo de álcool e drogas, bem como de mortes causadas por eles. O fato é que o
consumo dessas substâncias tem aumentado de maneira significativa no Brasil nos
últimos anos.
As afirmações de que os metodistas
são “abstêmios ao álcool, como bebida’ e “empenhados no combate aos vícios”
podem parecer simplistas, mas não é somente isso que os documentos da Igreja
têm a dizer. Lemos o seguinte no Credo
Social da Igreja Metodista, no capítulo “V – Problemas Sociais”, item nº
12:
“Dentre os problemas que
afetam a sociedade estão os chamados vícios como: o uso indiscriminado de
entorpecentes, a fabricação, comercialização e propaganda de cigarros, bebidas
alcoólicas, a exploração dos jogos de azar, que devem ser alvo de combate tenaz
já pelos efeitos danosos sobre os indivíduos como também pelas implicações socioeconômicas
que acarretam ao País.”
Percebemos na explicação
acima uma busca de aprofundamento das questões não somente do consumo de
álcool, mas de outras drogas e dos vícios. A palavra vício denota o entendimento de que há um desequilíbrio, uma
enfermidade e, ao mesmo tempo, um problema social e de saúde pública que afeta
diretamente familiares e pessoas próximas e, indiretamente, toda a sociedade,
com custos altíssimos, tanto financeiros como sociais e. principalmente, humano.
A Organização Mundial da
Saúde (OMS) caracteriza o consumo abusivo de álcool a ingestão de 60g de álcool
ou mais em uma única ocasião no período de 30 dias.
No Brasil, o álcool é
responsável pela maior parte das internações por abuso de substâncias e é
uma das grandes causas de hospitalização psiquiátrica. Dados do Ministério da
Saúde mostram que o alcoolismo provocou 313 mil internações no Sistema Único de
Saúde (SUS) entre 2010 e 2013, gerando um custo de R$ 250 milhões.
O consumo abusivo de
álcool também é um fator de risco para diferentes doenças crônicas,
comportamentos violentos, acidentes de trânsito e transtornos mentais. O
consumo abusivo de álcool no Brasil é um importante problema de saúde pública,
e diferentes medidas para inibir este consumo têm sido adotadas, como o aumento
da tributação de bebidas alcoólicas, além de uma série de programas e medidas
educacionais.
No Plano para a Vida e Missão da Igreja, capítulo Plano para as áreas
de Vida e trabalho, letra A – Ação Social, item 4.13 diz:
“A Igreja Metodista cumpre a sua missão na
área de ação social... estimulando o uso dos meios de comunicação e demais
recursos das igrejas locais, como instrumentos de esclarecimento quanto aos
males sociais, como a exploração da mulher e do sexo, dos jogos de azar e
loterias, bebidas alcoólicas e o fumo, que contribuem para a destruição da
saúde física, mental e espiritual do ser humano e da família.”
A Igreja entende que uma
mera e simples proibição não teria efeito, pois não geraria reflexão e nem
compromisso no combate aos vícios, o que deveria ocorrer não de forma
simplesmente moralizante, mas por uma real preocupação com o próximo em uma
atitude de amor tão profunda como a luta no combate às injustiças sociais e à
salvação das pessoas.
No artigo “Os/as
metodistas e o desafio da temperança”, do jornal Expositor Cristão de agosto de
2018 (link abaixo), vemos que a Igreja Metodista estadunidense apoiou a chamada
“Lei seca” nos EUA – a proibição da fabricação, transporte e venda de bebidas
alcoólicas para consumo em todo o país, que durou de 1920 a 1933.
A simples proibição, porém,
foi desastrosa e deu margem ao surgimento das gangues e da organização de uma
poderosa máfia de comercialização de bebidas, desencadeando em uma onda de
crimes e mortes, algo semelhante aos problemáticos métodos de combate ao
tráfico de drogas. A “lei seca” foi a única lei revogada na constituição dos
EUA.
Entendemos que a abstinência
deve ser um ato consciente, fruto de reflexão e desejo íntimo e não imposição,
caso contrário, poderia cair em outro erro apontado nos 25 artigos de religião
como uma obra de super-rogação:
“As obras voluntárias que
não se achem compreendidas nos mandamentos de Deus, as quais se chamam obras de
super-rogação, não se podem ensinar sem arrogância e impiedade; pois, por elas,
declaram os homens que não só rendem a Deus tudo quanto lhe é devido, mas
também de sua parte fazem ainda mais do que devem, embora Cristo claramente
diga: ‘Quando tiverdes feito tudo o que se vos manda, dizei: Somos servos
inúteis’”.
É um perigo que pode
levar ao farisaísmo e à arrogância espiritual, dividindo o povo de Deus entre
os “mais santos” e “mais dignos” ou até mesmo entre os “mais metodistas” que os
outros, perdendo o real sentido de abster-se por amor ao próximo, como
recomenda Paulo, em I Coríntios, capítulo 8, quando fala sobre um ato que em si
mesmo não tem maldade ou pecado (como beber), mas que pode escandalizar um irmão
ou irmã. Vale a pena ler todo o capítulo oito, mas versículo treze, que encerra
o capítulo diz:
“Por
isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que
meu irmão não se escandalize”. I Co 8.13
Paulo fala em
escandalizar as pessoas, mas no álcool e nas drogas e em outros vícios e compulsões
há um fator agravante: são doenças que fazem com que muitas pessoas não tenham
condição de serem “moderadas” ou de terem “temperança”. A primeira tragada, o primeiro
gole, a primeira bebida ou apenas o ambiente (um bar, uma balada) já as levam
ao consumo descontrolado, chegando a promoverem situações de risco e violência,
de morte das próprias pessoas e/ou de outras ao seu redor, vitimando
familiares, amigos, conhecidos, colegas de trabalho.
Mais que simplesmente
defender a liberdade de usar drogas (incluindo a bebida e o cigarro, que são
chamadas de drogas lícitas), precisamos lançar o nosso olhar para além de nós
mesmos e procurar entender a extensão que esse “ato de liberdade” pode ter.
Se temos um alcoolista em
nosso círculo social, em nossa igreja, em nosso trabalho, será mais justo
evitar bebida em nossas reuniões sociais ou expor a pessoa que tem um uso
problemático a um risco? Ou a solução seria isolar essa pessoa do convívio? Essas
questões precisam ser abordadas sob a ótica da ética cristã: quem vale mais,
meu prazer efêmero e imediato ou o contato e a comunhão com o próximo?
Uma situação como essa
não está tão longe da nossa realidade cotidiana, visto que um relatório da Organização
Mundial da Saúde (OMS) indicava que 16% da população mundial com 15 anos ou
mais apresentaram, ao menos, um comportamento de consumo abusivo de álcool no
período de um ano (dados de 2010).
Glamour e apologia nas redes sociais
Muitos metodistas, inclusive dentro do corpo pastoral, simplesmente não são abstêmios! Isso não os faz menos cristãos, menos empenhados na obra, menos membros do corpo de Cristo. Mas há uma desconexão com uma característica que se mostra fundamental aos metodistas, fruto de profunda reflexão e amor ao próximo e que, como apontado acima, a abstinência não deve ser tratada[N4] como uma lei, uma obrigação ou uma imposição, que a tornaria um ato[N5] vazio e tolo. O caminho deve ser sempre o da conscientização para o abandono de uma prática que pode ter consequências sérias.
Essa época é marcada pela presença onipresente dos meios de comunicação e das redes sociais, caracterizadas pela superexposição da vida, tornando-nos pessoas públicas. Somos influenciados e influenciamos uns aos outros/as, mas há públicos mais vulneráveis com os quais o cuidado deve ser especial: crianças e adolescentes.
As crianças imitam os
adultos e mesmo outras crianças com quem interagem. Os adolescentes, fase de
busca da identidade própria, imitam celebridades da TV, do esporte, youtubers e seu amigos e amigas, que têm
força para mudar comportamentos pela pressão do grupo.
No contexto das redes sociais,
notamos que a bebida se torna fator principal em muitas publicações, tendo
mesmo destaque maior que as pessoas em fotos e selfies. Há o fortalecimento da mensagem proposta pelas agências de
comunicação de que a bebida não apenas tem que estar presente nos momentos
marcantes da vida, como é a própria motivação da alegria daquele momento. As
pessoas se tornam, voluntariamente, garotos/as propaganda não apenas da bebida
em si, mas do modo de vida que aquelas marcas querem fazer acreditar que as
pessoas terão quando consomem seus produtos.
Então, é um paradoxo
complicado que um metodista, que supostamente tem em sua formação um histórico
de reflexão dos malefícios dos vícios, de forma especial da bebida na vida das
pessoas e da sociedade, use seus espaços pessoais para promover e fazer
apologia ao uso dessa mesma substância que sua igreja aponta como algo a ser
evitado.
Certamente, esse pequeno
espaço de diálogo não tem a pretensão de encerrar o assunto, mas levantar a
questão para que volte a ser abertamente debatida no seio das comunidades de fé
e para que sejam produzidas não regras rígidas a serem cegamente seguidas, mas
reflexão e ações que promovam a vida.
Por fim, entre moralismo
e saúde pública, cremos que nosso caminhar deva ir um pouco mais além que simples
bom senso. Que nossas ações sejam inspiradas por Deus e pautadas pelo amor ao
próximo.
*
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*
Rogério Pereira da Silva* – membro da Igreja Metodista
em Santo André
Com orientação de Dórica Menezes* (IM em Rudge Ramos),
Neusa Cezar da Silva* (IM em Vila Floresta) e Silvia Jacopucci* (IM em Santo
André).
*Membros fundadores do programa REVIDE – Restaurando
Vidas de Dependentes e Familiares, um grupo de apoio a dependentes químicos e
familiares que atuou por mais de 18 anos nas dependências da Igreja Metodista
em Santo André
Para saber mais:
Expositor Cristão
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Por que os metodistas são abstêmios ao
álcool?
·
Os/as metodistas e o desafio da temperança
Outras fontes:
Alcoolismo cresce entre os jovens e preocupa a OMS e
especialistas. Levantamento do IBGE diz que 1,5 milhão de adolescentes já
beberam. OMS aponta que o álcool é o maior causador de morte entre jovens.
Em 2016, brasileiro bebeu mais álcool do que a média
mundial, diz OMS. Dados revelam que, no Brasil, consumo per capita entre
pessoas acima dos 15 anos foi de 8,9 litros ante 6,4 no restante do mundo
Preconceito e desinformação dificultam combate ao
alcoolismo. A maioria das pessoas não sabe que o alcoolismo é uma doença.
Brasil é o quinto país em mortes pelo consumo de
álcool nas Américas

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