Ele a tomou para si...

Era noite, quase madrugada. Um vento frio levava a pouca dignidade que tentava resistir naquele beco escuro.
Mais uma sexta-feira e lá está ela, encostada naquele poste sujo, corpo dormente, mente voando longe... ela nem sabe mais porque está ali. Não há prazer, o dinheiro é pouco e o medo é terrível. Enquanto pensa, observa que noite parece diferente. Era inverno, movimento fraco, nenhum cliente até aquela hora. Ao longe o som de alguns carros... o vento frio traz uma estranha sensação, indefinível... difícil entender se era algo bom ou ruim. "O vento sopra onde quer..."
Aquela brisa noturna trouxe um sentimento há tanto esquecido: esperança. Esse sentimento novo lutava com o medo, um morador antigo de sua alma.
Ela sentiu vontade de correr, vontade de sumir, vontade de nunca ter estado ali. Um sentimento de culpa invade seu coração. Lembrou-se de sua vida, de suas tragédias pessoais, de suas decisões e de tudo o que a conduzira até ali. Imagens tristes voltaram à sua mente: o pai espancando a mãe; a mãe fugindo de casa deixando-a com seus quatro irmãos; o pai dando-lhe uma surra e depois a violentando... uma lágrima rompeu dos seus olhos, descendo como um rio a abrir caminho pela pesada pintura em seu rosto, permitindo que a pele aparece fresca e límpida...
Ela pensava nas coisas que nunca pode fazer, como estudar, brincar, ir ao zoológico, ter uma tarde tranqüila em família... também pensava nas coisas que fez: saiu de casa ainda adolescente, bebeu muito, usou vários tipos de drogas, nas ruas enfrentou todo tipo de temperatura e chuvas frias, vestida com roupas sensuais que não protegiam seu corpo, mas o que protegera sua alma até ali?
Nunca havia se arrependido de nada. Se cometera algum ato errado, foi por conta do sofrimento que a vida lhe impôs. Mas agora sentia o mundo desabar sobre seu coração.
Tinha quase trinta anos, mas seu estilo de vida fazia parecer muito mais velha. Do pai nunca mais tivera notícia. A mãe há muito se fora, era uma imagem apagada na memória. Dos dois irmãos que haviam sobrevivo às lutas da vida raramente tinha notícias.
Mais uma vez sentiu-se culpada. Sentiu-se solitária, amedrontada, pecadora, prostituta. Agora as lágrimas rolavam quentes por seu rosto frio, e não pensou no pai... mas pensou no Pai... e pela primeira vez em sua vida ela orou.
Naquele desespero ela falou com Deus, sentou-se ali na calçada e contou a Ele toda a sua história. Contou seus sentimentos, suas dificuldades, suas lutas. E Deus ouviu em um silêncio amoroso. Ele mandara todo o universo se calar para ouvir a voz fraca e soluçante daquela mulher.
Para surpresa da moça, uma tranqüilidade tomou conta de seu ser, fazendo calar todas os gritos de medo e desespero que sempre a assuntaram. Sentiu que Deus simplesmente a ouviu, simplesmente a perdoou, simplesmente a amou.
Não há mais ninguém recostada naquele poste. Aquela mulher estava muito doente e nem sabia. Tivera uma vida desregrada e sofrera durante anos com as baixas temperaturas da madruga e os riscos do sexo sem proteção. Seu corpo não agüentou. E naquela noite, como ninguém ainda havia apresentado Jesus a ela, próprio Deus se revelou naquela madrugada. O próprio Deus a tomou como filha. O próprio Deus a levou para si.
"...Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus." Mt 21.31
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