O bicho não vai pegar

"Vai deitar se não o bichão vai te pegar".

Desde pequeno ela falava isso quando a gente queria ficar vendo televisão até mais tarde. E vinha acompanhada com muitas risadas. A frase continuou até a fase adulta, pois ainda morava com ela.

O bichão nunca veio me pegar! Agora sinto falta da advertência quando vou deitar mais tarde.
Engraçado que uma "ameaça" de brincadeira me dava uma sensação de segurança, afinal, ela nunca deixaria o bichão em pegar, nem a meus irmãos.

Esse humor, esse cuidado, esse tudo faz falta. E no fim um bichão chamado câncer a pegou... as complicações da cirurgia, a fragilidade do corpo...

Lembro da última vez que a vi consciente... tinha começado meu turno para ficar com ela. Meu pai passou a noite, minha tia havia ficado no período da manhã e eu passaria a tarde.

Eu sempre levava o computador para ela falar via Skype com minha irmã, que estava muito longe, em outro estado. Mas naquele dia eu havia levado uma mensagem que o pastor havia gravado para ela.

No exato momento que terminamos de assistir a mensagem, as enfermeiras vieram busca-lá para preparar para a cirurgia. Ficamos surpresos, esperávamos isso somente para o dia seguinte.

Na saída no quarto, ela me olhou com os olhos assustadinhos, mas mesmo assim sorriu.

Só me arrependo de não ter dito nada, mas nem imaginava que seria a última vez..

Nesse tempo de ausência física, penso sempre em tantas coisas que queria mostrar, falar e fazer a ela, mas as lembranças são sempre doces pois, por mais que nós brigássemos (e como a gente discutia!), sempre houve um companheirismo, uma cumplicidade, risadas e muitos, mas muitos abraços. Esses me fazem muitíssima falta!

Não há nenhum outro arrependimento, nem culpa, porque acho que nossa relação foi completa. Só não teve uma mulher para competir com ela. Aliás, até houve, mas ficou no passado! Quem sabe no futuro!

Mas igual a ela, jamais, a mais alegre, a mais "de bem com a vida".

Uma das últimas fotos, já no hospital
Só sei que todos os momentos bons (que foram muitos), todas as risadas, todos os beijos, todos os abraços, toda alegria e a fé bicho nenhum poderá pegar (quem nos separará do amor de Deus? Romanos 8.35).

E a fé. A Bíblia e o No Cenáculo estava com ela o tempo todo, mesmo no hospital. E muitas coisas da fé ela me ensinou...

E é esse mesma fé e esse amor que me dão a certeza que ela foi recebida na imensidão da VIDA!

Ainda vou contar a história dessa pessoal tão especial.
Saudades mamãe, até breve!

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